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A teus pés

Mis à jour : mai 16


Foto Dani Legras


Escrito por Dani Legras


Um vírus que se espalha como fogo.

Fissura irreparável num mundo cuja sina tem sido a de nos desapontar.

A aldeia global de McLuhan declina e o caos age como de costume sem grandes pudores.

Os rituais fúnebres das vítimas nos foram confiscados. Como Aquiles que num acesso de loucura priva o rei Príamo de velar o corpo do guerreiro Hector.

De nossas vidas enclausuradas lidamos com novos desafios: a profusão de violentas emoções, o medo do desconhecido e a profunda sensação de desamparo.

Racismo, xenofobia, delírios paranoicos brotam como ervas daninhas, fruto de sentimentos infames.

Nada nos impede de sonhar que em algum lugar do mundo o exato oposto também acontece.

“Consta nos astros, nos signos, nos búzios”[1] que o mundo pós-pandemia nunca mais será o mesmo. Há quem diga que o fim do isolamento será tão traumático quanto esses infindáveis dias de impedimento.

O desejo de consolação é imperativo e o mecanismo de auto-sobrevivência vital. Tamanha conflagração desperta o interesse – legítimo - por estudos científicos, análises sociológicas, reflexões antropológicas, considerações metafísicas e poéticas ; tudo servido num emaranhado de informações simultâneas.

O “presque rien” e o “je-ne-sais-quoi” de Jankélévich nunca foram tão necessários:

“O brilho tímido e fugaz, o flash, o silêncio, os sinais evasivos - essa é a forma pela qual as coisas mais importantes da vida escolhem ser conhecidas. Não é fácil captar o brilho infinitamente questionável ou entender seu significado. Esse brilho é a luz intermitente da visão na qual o estranho se reconhece subitamente. Mais intangível que o último suspiro de Mélisande, o brilho misterioso lembra uma respiração leve...[2]

Perdemos a noção das horas e dos dias vividos entre quatro paredes, um habitar diferente do tempo, algo inesperado.

Silenciamo-nos e vivemos um caso de amor com as palavras – escritas, lidas, pronunciadas. O belo nos conforta, a harmonia nos tranquiliza. É isso ou enlouquecer de vez.

Você, eu e todos os outros

Quanta saudade das rodas de conversa e da embriaguez entre amigos…Choro quando vejo a curva vertiginosa dos gráficos “quando as pessoas passam a ser números e as biografias desaparecem[3]”.


Dani Legras é jornalista da France Culture e do Slate.fr. Já colaborou com Itélé, TV5 Monde e RFI.

Ela escreve de Paris.

[1] Dueto, de Chico Buarque e Clara Buarque [2] Trecho livremente traduzido do livro Le je-ne-sais-quoi et le presque-rien: La manière et l'occasion de Vladimir Jankélévitch. [3] (entrevista de Débora Diniz/ Folha de São Paulo). https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/mundo-pos-pandemia-tera-valores-feministas-no-vocabulario-comum-diz-antropologa-debora-diniz.shtml

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