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Da solidão na multidão à mancha humana, havia uma pandemia no caminho

Mis à jour : mai 5



Texto e foto Marcela França


Ainda no início da minha vida acadêmica me deparei com um conto de Edgard Allan Poe, O homem das multidões, que marcou de forma indelével a minha formação. Conto referência para os pensadores da modernidade, ele inaugura um pensar sobre a solidão que se sustenta nas multidões. Um fenômeno que carrega a antitética experiência de não se encontrar só, ao mesmo tempo em que nunca se é visto. O homem da multidão não se dá a conhecer. A quantidade de transeuntes que parece dar sustentação à vida, ao mesmo tempo provoca uma fluidez completamente aleatória e despregada do contato humano, assim segue a personagem do conto de Poe, stalkeada pelo narrador.

A vida em uma metrópole traz à tona a essência da experiência humana, a solidão em meio à multidão. Não é mais possível viver sem ela e, a partir dela sustenta-se um distanciamento seguro para não ser visto em seus pequenos e grandes crimes. E, de certa forma, eles pertencem a essa estruturação da vida.

Por um ano tive o prazer de experimentar a vida em uma metrópole como Nova Iorque, que é um lugar quase despregado de um país, um planeta babélico. Trago como um recorte empírico dessa experiência as reuniões de estudos que eu frequentava, além de pensar Lacan – que é por si só o estudo de uma outra língua – ainda o fazíamos em espanhol, inglês e francês, comigo pensando em português. Era no mínimo um luxo cultural. Um encontro desencontrado de um esforço descomunal.

Antes de cair de amores por essa localização geográfica, despregada das minhas referências, eu odiei a multidão, praguejei e desejei o fim do mundo caso o mundo viesse a ser a Times Square. Contudo, com o correr do tempo e o deslizar pela cidade acompanhada das lições benjaminianas sobre o fluir da vida urbana na imagem do flâneur – que chega a ele pela escrita de Baudelaire – passo a me encantar pelo que vivo ali. Entendo que é preciso me deixar levar, entrar no ritmo da cidade e descobrir o meu compasso em meio a ela.

Escolhia pessoas, não aleatoriamente, é claro, mas que carregavam um sinal de algo que me interessava. Eu as acompanhava e chegava a lugares incríveis. Fui mapeando a cidade por meio desses desconhecidos que carregavam algo de infamiliar, aquilo que nos é desconhecido por nos ser tão íntimo e, portanto, mantemos escondido, inclusive de nós mesmos. Alguns seguiam sem me perceber, outros chegavam a fazer contato, como uma moça que arrumava o cabelo enquanto caminhava a passos rápidos, de repente ela parou, olhou para trás – lá estava eu flagrada em meu crime – e me perguntou se o coque estava bom. Sim, estava bem elaborado, respondi quase sem ar.


Aos poucos esse jogo desapareceu em meio à sensação de pertencimento a uma certa fluidez geográfica e cultural.

Hoje, no mundo da pandemia, bem na virada de uma situação suspeita até o fechamento das fronteiras, revisitei Nova Iorque por 3 dias. No primeiro dia ainda era uma cidade vibrante, pessoas nas ruas, um sol gostoso de início de primavera, algo que se espera como uma corda de salvação para muitos suportarem o inverno. Vozes, risadas, amigos se encontrando em bares, pessoas jogando nas quadras, grupos cantando nas ruas e a Washington Square repleta de gente.

Segundo dia, nada de álcool em gel nas farmácias, já que ele o papel higiênico (esse ainda uma incógnita, pelo menos para mim) se tornaram a tábua de salvação da pandemia. Alguns restaurantes e lojas fechados, pouca gente nas ruas, fácil de circular sem esbarrar em ninguém e exercitar o distanciamento social. A região do Meat Packing parecia uma vila de faroeste, bolas de feno rolando com o vento. Tensão, medo de não conseguir retornar à minha casa, mas a cidade estava linda.

Terceiro dia e a consciência de que a multidão não é um fator que eleva a experiência estética, a cidade estava bela e mostrava todas as suas formas. O sol dava um show pirotécnico entre os prédios. Sideração entre a beleza e o horror de ter sido abandonada pela multidão, não era mais Nova Iorque.

A explicação da expressão “a mancha humana”[1] que dá título ao romance de Philip Roth sustenta a dialética dessa experiência da qual não conseguimos nos livrar, entre a mancha, essa imundice impura, e a limpeza do afastamento. E talvez esteja aí a grande dificuldade de se desvencilhar de qualquer produção humana, mesmo quando devastadora e destruidora da própria espécie. Há um encantamento por essa mancha que os seres de linguagem dão aos espaços, mesmo quando não falam, mesmo quando não se tocam. Algo nos mancha e carrega a marca da nossa insistência em vir a ser, a saber o fim compartilhado.


Ninguém quer morrer sozinho e é aí que reside todo o horror. Não se trata do vírus, nem do adoecer, não se trata da morte em si. A face aterrorizadora desta passagem da história da civilização é a solidão em seu sentido absoluto.

[1] “The stain that precedes disobedience, that encompasses disobedience and perplexes all explanation and understanding. It’s why all the cleansing is a joke. A barbaric joke at that. The fantasy of purity is appalling. It’s insane. What is the request to purify, if not more impurity? All she was saying about the stain was that it’s inescapable. […] the inevitably stained creatures that we are.” (“The human stain”, Philip Roth, 2000. p.242)

Marcela França é psicanalista, Membro do Centre for Memory and Testimony Studies da Universidade Wilfrid Laurier, no Canadá, e é professora da Universidade Federal de Goiás.

Ela escreve de Toronto.

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