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O que você vai comprar quando o confinamento acabar?

Mis à jour : mai 28




Quando o confinamento acabou em Wuhan na China, eu vivia minhas primeiras semanas de isolamento na França. Para retratar a saída dos chineses às ruas, a tevê francesa entrevistou pessoas que faziam fila na porta de um shopping da cidade. Entre elas, uma jovem eufórica explicava ao jornalista que depois de mais de dois meses confinada, era a primeira vez que saía de casa e que não via a hora de voltar à vida normal.

Dentro do shopping, uma vendedora usando luvas e máscara, com várias peças íntimas nas mãos, explicava como organizaria as roupas em uma arara, segundo as novas e estritas normas sanitárias impostas aos comerciantes pelo governo chinês.

Confesso que fiquei decepcionada. Após 77 dias presos em casa, os moradores da cidade que foi o berço do coronavírus podiam finalmente sair. Um momento tão esperado tinha sido representado de maneira tão prosaica.

Nas últimas semanas foi a vez dos países europeus saírem do confinamento e encontrarem seus comércios preferidos. Na Bélgica, filas quilométricas se formaram às portas da loja de móveis Ikea. A mesma coisa foi vista em Paris, diante da Zara e da Fnac.

Ainda que traumatizados, os povos do mundo tentam voltar à normalidade. Voltar à normalidade significa fazer compras.

Não que a gente tenha deixado de lado essa atividade, mas durante a quarentena, com todas as lojas fechadas, ela se restringiu aos produtos de necessidade básica, pelo menos aqui na Europa.

O objetivo do fim do confinamento, deixado claro e repetido por todos os governos, é a retomada da tão abalada economia (o PIB da Europa deve sofrer em 2020 uma retração de 7,7%). Uma das principais atividades que alimentam a engrenagem de nossas sociedades é comprar. Então, por que não gastar o dinheiro que economizamos durante estes dias fechados em casa?

Pouco importa o que vamos comprar nos próximos dias: uma calça nova para o filho que cresceu e deve voltar para a escola, um parafuso para a bicicleta ou uma máscara Louis Vuitton que aparentemente já existe no mercado, despesa necessária ou prazer perdulário, o importante é que a gente continue contribuindo para o bom funcionamento da economia. Isso é o que fazem os bons cidadãos, é o que os governos esperam de nós.

Todos os indicadores que medem o desenvolvimento de uma sociedade são baseados em nosso poder de consumo. Até mesmo nossas relações com os meios de comunicação e com a cultura passam por essa ideia.

A única coisa que talvez pudesse nos impedir de gastar nossas suadas economias na primeira loja que cruzássemos depois de dias de privação se chama consciência ecológica. Essa tal consciência se desenvolveu perigosamente nas últimas décadas. Algumas pessoas começaram a se questionar se nosso modelo econômico poderia destruir o planeta. Outros se aventuraram por caminhos ainda mais perigosos e começaram a se perguntar se os recursos naturais tinham um limite e podiam acabar.

Essa pergunta foi respondida em 1972 pelo relatório do Clube de Roma, Os limites do Crescimento[1]. No documento, Donella Medows e seus colegas afirmavam com todas as letras que sim, a terra tem um limite e se continuarmos a fazer “business as usual” chegaremos rapidinho nele.

Na época, o relatório, o primeiro a utilizar modelos e cenários para simular o futuro e fazer previsões, foi considerado catastrofista. Para acalmar a opinião pública e garantir que não pensássemos fora da lógica a qual já estávamos habituados, em 1987 a ONU, através do Relatório Brundtland, mais conhecido por Nosso futuro comum[2], cunhou o termo desenvolvimento sustentável que unia duravelmente economia, desenvolvimento e ecologia.

A partir de então, foi criada a ideia de que era possível, através de gestos individuais de consumo, mudar a sociedade sem alterá-la de verdade. Poderíamos proteger o planeta sem mexer muito em nosso sistema econômico.

A base do pensamento ecológico que veio depois do que parecia uma ideia revolucionária de desenvolvimento, na verdade foi a mesma de sempre. Tudo para garantir que poderíamos continuar a comprar e manter o máximo de tempo nosso modelo de produção.

O fechamento do comércio nos últimos meses e a brutal desaceleração da economia mostrou que esse modelo, baseado na produção e venda de produtos em massa, na verdade é insustentável. Muita gente começou então a falar de um possível fim da sociedade capitalista, ou pelo menos, da sociedade de consumo.

As filas nas portas das lojas parecem mostrar o contrário. Mas dentro da lógica produzida nas últimas décadas, comprar pode ser ecológico, afinal, investir em produtos orgânicos, carros movidos a combustíveis alternativos ou elétricos e em cosméticos e roupas com uma etiqueta ambiental parece até bom para o planeta. Na verdade, essas são apenas novas formas de consumo restritas a poucas pessoas que podem pagar por elas. O que deveríamos realmente perguntar é se realmente precisamos de tantas coisas.

A questão não é se sentir culpado pelas compras que fazemos, porque no mundo que vivemos somos 24h compelidos a consumir. Nosso valor é medido diariamente por nossa capacidade de comprar. O que nos anima a agir, a pensar, a produzir é o desejo de ter.

Sair dessa lógica é uma enorme revolução, não apenas econômica, mas cultural, social e do sistema de valores que condicionam nossa percepção do mundo. É o que os sociólogos chamam de mudança de paradigma.

Essa mudança não vai ser feita de maneira natural como querem muitos. A causa também não será a pandemia. Fazer com que a vida normal não se resuma às compras no shopping não é uma mudança que pode ser feita individualmente. Vai ser necessário um grande esforço intelectual e muita força de vontade para repensar nossas instituições em um novo modelo de produção. Porque as revoluções precisam de luta tanto quanto precisam do gênio humano.


Ana Carolina Peliz é jornalista, doutora em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade Paris Sorbonne, especialista em comunicação e crise ambiental.

Ela escreve de Paris.

[1] Meadows, Donella H., RAnders, Jorgen (org.), The limits to growth. Potomac: New York, 1972. [2] Brundtland, G. H. (dir.) (1987) Notre avenir à tous [En ligne]. URL : http://www.diplomatie.gouv.fr/fr/sites/odyssee-developpement-durable/files/5/rapport_brundtland.pdf (consulté le 14 septembre 2014).

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