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Uma sociedade sem escolas?




Por Maíra Mamede


O fechamento das escolas foi uma das primeiras medidas drásticas tomadas pelo governo francês para conter a pandemia, antes mesmo das medidas de confinamento. Estupefação geral quando se anunciou que na semana seguinte não haveria mais escola. Como assim?! Era o anúncio de uma ruptura com o que costumamos chamar normalidade. E era preciso inventar outra coisa.

Essa outra coisa foi chamada de “continuidade pedagógica[1]”. Mas continuar significa seguir do mesmo jeito, o que definitivamente não era possível sem sala de aula, sem colegas e sem professor. Resumindo, a continuidade pedagógica era uma não-escola muito desgraçada, que não tinha teto, não tinha nada. Ela exigiu dos professores uma capacidade enorme de improvisação pra reinventar essa escola além dos muros da escola. A eles, coube tanto a culpa quanto o mérito de fazer demais ou de menos, de abrir perspectivas interessantes ou de se enclausurar num simulacro de escola. Um ponto em comum entretanto, todos tiveram que parir a continuidade pedagógica através da tecnologia : e-mails, blogs, sites, padlet, zoom... um monte de palavra nova pra uma instituição tão antiga! Viva a modernidade! Graças a ela, fronteiras foram quebradas e a escola entrou nas casas.

A continuidade pedagógica exigiu, por vários motivos, um esforço considerável dos pais e eu ousaria dizer principalmente das mães pra se tornarem mediadores entre a escola e os filhos.

Primeiro que a vida em plena pandemia é tudo menos uma situação serena pra sentar e fazer dever de casa com os filhos. Frente à ansiedade e ao medo, à doença e ao luto, qual a importância de um dever de casa ? Frente à exigência do trabalho, dentro ou fora de casa, ou ainda frente ao desemprego, fazer as atividades escolares continua sendo uma prioridade ? Qual o sentido de seguir como antes se o mundo tal qual o conhecíamos não existia mais ? Muito possivelmente, para alguns (inclusive para professores), a obrigação de continuidade pedagógica era o colete salva-vidas que permitia manter uma ilusão de normalidade dentro da situação excepcional que atravessamos. Mas para outros, em primeiro lugar para as próprias crianças, ela marcava dia após dia a impossibilidade de toda normalidade. E teve quem oscilou entre esses dois polos, na busca de um equilíbrio mental, o próprio e o dos filhos.

Segundo que nem todo mundo nesse nosso mundo moderno tem computador e impressora. E eles passaram a ser o material escolar obrigatório, em boa parte dos casos. Nem todo mundo sabe abrir arquivo anexo e muito menos se conectar a uma plataforma. A fratura digital é reflexo de um abismo social enorme. Sim, sim, num país rico como a França, também há desigualdade social. Teve família confinada em 15m2 e tem família inclusive que nem casa tem. Pra os excluídos, a escola pública francesa ainda é uma possibilidade de acesso a res publica, ao bem comum. Transitar em outras esferas sociais, interagir com outros é a possibilidade de alargar horizontes e de se construir no tecido social. É uma condição pra resistir ao habitus familiar e se individualizar, às vezes até um degrau pra escapar da reprodução social[2].

Terceiro que nem todo mundo foi aluno quando criança ou não por muito tempo. Como ensinar o que nunca foi aprendido? Alguns o foram há anos e daquele tempo só guardam a lembrança do recreio. Como se desnudar incapaz ao filho? E nem todo mundo pode se improvisar professor e muito menos professor de seu filho, inclusive quando já se é professor. Qual postura adotar? Vale a pena forçar? E se ele atrasar na escola? Perguntas sem respostas nesses tempos de afetos atormentados pela falta de respiro. Essa volta compulsória à escola de uma geração que há muito já a tinha deixado seguramente trouxe à tona apreensões, fobias e delícias do passado escolar, em parte transferidos por efeito colateral[3]. Teve foto no instagram de crianças sorridentes fazendo dever de casa. Mas teve grito e teve choro (inclusive dos pais), e provavelmente palmada também... mas isso não é instagramável. Convenhamos, fazer dever de casa é chato mesmo! O nome já diz tudo: “dever”!

Na Declaração Universal dos Direitos da Criança, a educação é um direito. Ela é fundamental para que a criança se desenvolva como ser humano, como cidadã. Nessa nossa sociedade atual, sem escolas, como pensar esse direito ? Através da sua provocação, Illich[4] nos convida a questionar uma escola tecnocrática, conteudista, uniformizadora. Ele convida a pensar uma escola onde o saber rime menos com dever e mais com prazer: de aprender, de crescer, de pensar. É esse prazer que nos permite ultrapassar o enfado e o esforço que por muitas vezes estão presentes nas situações de aprendizado. Aprender é difícil, mas é transformador! Illich convida a pensar uma escola libertadora, tal como Freire e sua educação como prática da liberdade[5], na qual as pessoas se emancipam juntas, transformam umas às outras, através do saber, para em seguida transformar o mundo.

Muito se discutiu sobre como fazer o conteúdo de ensino chegar aos alunos. A tecnologia responde, em parte, a essa pergunta, pelo menos aos que têm acesso. Mas qual uso queremos fazer dela? Ela pode ser um instrumento de saber e de transformação, um instrumento de encontro, como também ser um instrumento de opressão e alienação dos alunos e dos pais, e até mesmo dos professores. Talvez as perguntas importantes sejam o que levar aos alunos e sobretudo por quê fazê-lo. Com qual finalidade?

Depois de quase dois meses de confinamento, começamos o desconfinamento aqui na França. Algumas crianças retornam às antigas escolas, e devem obedecer às novas regras de distanciamento social. Mas não há lugar para todas e muitas outras continuam a não-escola em casa e só retornarão em setembro, início do próximo ano-letivo. Todas estão saudosas de uma escola que não existe mais. Numa espécie de ensaio geral, um protocolo sanitário a transformou em outra coisa, para qual ainda não consigo dar um nome. Viva a modernidade?

Antes que o Admirável Mundo Novo[6] se imponha à escola nos tempos da covid, pensar no sentido do ato educativo nesse contexto conturbado me parece essencial. Repensar a liberdade na e pela educação me parece urgente.

Maíra Mamede é pesquisadora em sociologia da educação do Grupo CIRCEFT-ESCOL da Universidade Paris Est Creteil, professora de professores e mãe em (des)continuidade pedagógica.

Ela escreve de Paris.

[1] Esse foi o termo utilizado pelo Ministério da Educação Nacional. [2] Bourdieu, P. (1970). La reproduction. Éléments pour une théorie du système d’enseignement. Paris, Editions de Minuit. [3] Charlot, B. (1999) Du rapport au savoir. Éléments pour une théorie. Paris, Ed. Anthropos. [4] Illich Ivan (1985) Uma sociedade sem escolas. Ed Vozes, Petrópolis. [5] Freire, Paulo (1967) Educação como prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra. [6] Huxley, A. (1941) Admirável Mundo Novo. Porto Alegre, Editora Globo.

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